"No livro Prosa Reunida, de Adélia Prado,
encontrei uma frase singela e verdadeira ao extremo. Uma personagem
põe-se a lembrar da mãe, que era danada de braba, mas esmerava-se na
hora de fazer dois molhos de cachinhos no cabelo da filha, para que ela
fosse bonita pra escola. “Meu Deus, quanto jeito que tem de ter amor”.É
comovente porque é algo que a gente esquece: milhões de pequenos gestos
são maneiras de amar. Beijos e abraços são provas mais eloqüentes, exigem retribuição física, são facilidades do corpo. Porém há diversos outras demonstrações mais sutis.
Mexer no cabelo, pentear os cabelos, tal como aquela mãe e aquela
filha, tal como namorados fazem, tal como tanta gente faz: cafunés.
Amigas colorindo o cabelo da outra, cortando franjas, puxando rabos de
cavalo, rindo soltas. Quanto jeito que há de amar.
Flores
colhidas na calçada, flores compradas, flores feitas de papel,
desenhadas, entregues em datas nada especiais: “lembrei de você”. É este
o único e melhor motivo para azaléias, margaridas, violetinhas. Quanto
jeito que há de amar.
Um telefonema pra saber da saúde, uma
oferta de carona, um elogio, um livro emprestado, uma carta respondida,
repartir o que se tem, cuidados para não magoar, dizer a verdade quando
ela é salutar, e mentir, sim, com carinho, se for para evitar feridas e
dores desnecessárias. Quanto jeito que há de amar.
Uma foto
mantida ao alcance dos olhos, uma lembrança bem guardada, fazer o prato
predileto de alguém e botar uma mesa bonita, levar o cachorro pra
passear, chamar pra ver a lua, dar banho em quem não consegue fazê-lo
só, ouvir os velhos, ouvir as crianças, ouvir os amigos, ouvir os
parentes, ouvir. Quanto jeito que há de amar.
Rezar por alguém,
vestir roupa nova pra homenagear, trocar curativos, tirar pra dançar,
não espalhar segredos, puxar o cobertor caído, cobrir, visitar doentes,
velar, sugerir cidades, discos, brinquedos, brincar: quanto jeito que
há."
Martha Medeiros
Livro Paixão Crônica
2003