"(...)
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois, atraiu-a a si, em rápido afago.
- Não quero que lhe aconteça nada, nunca! Disse ela.
- Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa
tranquila se arrebenta, e na casa toda havia um tom humorístico, triste.
É hora de dormir, disse ele, é tarde.
Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do
espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se
deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia."
Amor - Laços de Família
Clarice Lispector